Esse jogo chegou na hora certa
Night City é linda a noite.
Matheus Dias
26 de agosto de 2026

Obra prima
Existem jogos que a gente termina, coloca na lista de concluídos e eventualmente esquece. Existem outros que permanecem na memória por causa de uma missão, de um personagem ou de uma música. E existem aqueles que, por algum motivo, encontram a gente exatamente no momento em que mais precisávamos deles. No meu caso, Cyberpunk chegou numa hora meio obscura da minha vida, minha demissão numa empresa que me esforçava demais. Minha primeira experiência com Cyberpunk aconteceu em uma semana que, olhando hoje, parece quase simbólica. Eu havia acabado de sair do meu emprego. Não foi simplesmente uma mudança de rotina: eu vinha carregando um desgaste enorme, uma sensação de cansaço constante, de estar mentalmente esgotado. Era aquele tipo de fase em que você termina o dia sem necessariamente ter energia para fazer qualquer coisa, mesmo quando finalmente tem tempo livre. E talvez minha conexão com esse game tenha sido tão forte, porque de certa forma ela moldou uma parte importante da minha vida.
Enquanto eu tentava sair da minha vida real, eu entrava em Night City e era mágico.
Night City não é só uma cidade que ambienta um game, ela é mais que isso, ela continua existindo durante sua gameplay ou quando seu personagem está parado. Há pessoas andando pela cidade, propagandas em todos os lugares, diálogos soltos, bares, becos, luzes neon de todas as cores refletindo o asfalto molhado. A própria proposta de Cyberpunk é colocar você na pele de V, um mercenário tentando construir sua reputação em uma cidade obcecada por poder, dinheiro, modificações corporais e status. O jogo te dá 3 opções, em todas sua motivação é a mesma. Ao decorrer da gameplay, descobri uma coisa muito particular: V está desesperadamente tentando encontrar um caminho para continuar existindo, igual a mim. É claro que as situações são completamente diferentes. V está literalmente enfrentando uma ameaça à própria vida, enquanto eu estava apenas atravessando uma fase difícil. Uma das coisas que mais me surpreenderam no jogo foi que a ambientação não é a única coisa forte do jogo, os personagens nos quais você cria uma relação são especiais; Amor, amizade, rivalidade, ódio. Cada um deles parece carregar seus próprios problemas, desejos e contradições. E conforme você vai conhecendo essas pessoas, Night City deixa de ser apenas uma cidade bonita. Johnny Silverhand é o que mais me impactou. No começo do jogo eu já sabia o que pensar dele. Ele é arrogante, agressivo, extremamente narcisista e sempre está pronto para transformar qualquer conversa boba em uma discussão e um discurso anarquista. Conforme você joga, entende que não é apenas o superficial que contrasta, eventualmente você descobre que V e Johnny — e eu — tem uma coisa em comum: Estão tentando entender o que significa continuar sendo elas mesmas. Outra coisa que tornou minha primeira experiência tão marcante foi não saber exatamente quais escolhas seriam importantes. Eu não estava jogando pensando em guia, melhor build ou tentando fazer o final perfeito. Eu estava simplesmente escolhendo aquilo que parecia certo naquele momento, como se V fosse eu e isso tornou algumas consequências muito mais fortes, porque quando você joga pela primeira vez sem saber o que vai acontecer, determinadas decisões deixam de ser mecânicas de videogame e elas parecem ser decisões suas. Você conversa com alguém que você gosta, ajuda porque parece a coisa certa, escolhe um determinado caminho porque acha que seria aquilo que V faria. Mas logo após o jogo te coloca diante as consequências de suas próprias escolhas, você percebe que passou horas construindo uma história que é exclusivamente sua Bom, essa análise não traz aspectos técnicos, spoilers e reclamações de alguns bugs, é sobre sentimento, e, para mim, Cyberpunk 2077 sempre vai ser lembrado como o jogo que encontrei quando estava deixando um emprego, tentando me recuperar de um burnout e procurando alguma coisa — qualquer coisa — que me permitisse desligar a cabeça por algumas horas.
Veredito
Uma experiência inesquecível
